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A acção inteligente e consequente no caminho da autonomia

Quarta-feira, 19.10.11

 

Todos procuramos fórmulas que funcionem, nas nossas vidas e à nossa volta. Uns, em busca do sucesso e da aprovação social, outros, para simplesmente sobreviver num mundo competitivo, outros ainda, os mais ambiciosos a meu ver, para realizar os seus sonhos e serem felizes.

Provavelmente, a maioria experimenta as várias fases deste caminho, há o tempo da simples sobrevivência, há o tempo do relativo sucesso profissional, há o tempo da materialização de um sonho antigo. 

Mas o verdadeiro sabor da autonomia, decidirmos pelas nossas vidas, sentirmo-nos perfeitamente alertas e despertos, conscientes do chão que pisamos, da sua consistência, dos seus obstáculos e perigos ou das suas oportunidades, esse sabor ainda não o experimentámos, a não ser em curtos períodos.

 

O caminho da autonomia não nos é apresentado na infância nem na adolescência, precisamente as épocas mais interessantes e promissoras do nosso desenvolvimento, em termos de inteligência e curiosidade. Nessas épocas promove-se precisamente a obediência e o conformismo, enquadrar numa forma de ver a realidade e de viver em comunidade. Com um pouco de sorte encontramos adultos que nos desafiam a pensar pela nossa própria cabeça, a descobrir as coisas, a não nos contentarmos com o que nos apresentam como real. E com mais sorte ainda, cruzamo-nos nas nossas vidinhas domesticadas com adultos divertidos, bem-humorados, gratos pela sua vida, por mais simples que nos pareça. Geralmente são pessoas de idade avançada e tempo para aturar uma criança ou um adolescente.

 

Confundir a actual liberdade de movimentos de uma criança ou de um adolescente com autonomia é um erro. O que se passa hoje é bem diferente: estão entregues a si próprios. Falta ali um elo humano de ligação à realidade, mesmo que inadequado ou baseado na tradição, mas ainda assim melhor do que a actual ausência e tantas vezes negligência. As pessoas que antes exerciam um qualquer papel formativo ou de formatação, são agora substituídas por pequenos acessórios: telemóveis, blackberries, ipods, consolas, etc. De criaturas formatadas por adultos passamos a criaturas dependentes virtuais. Antes os adolescentes treinavam a autonomia a pouco e pouco até sair de casa. Hoje saem, divertem-se e voltam para comer e dormir. 

 

Não preparámos uma geração de autónomos mas de autómatos. O que vemos hoje são pessoas paralisadas pelo medo do futuro, incapazes de agir de forma adequada a cada situação que se apresenta. A própria sociedade organizou-se a promover o conformismo geral: nós decidimos por si. Foi o que se viu. Os resultados estão à vista. Geriram mal o país, de forma negligente e danosa. E as pessoas deixaram-se conduzir e embalar, até porque iam recebendo ao longo da jornada aquelas promoções de marketing de massas, goze agora pague depois. 

Agora, acabada a festa, fica a ressaca, uma enorme dor de cabeça e um olhar atónito e incrédulo, de quem não previu nada disto. Agora a conversa oficial é outra evidentemente, até porque as elites pertencem à prata da casa, de uma sociedade que nunca se organizou para a responsabilidade: é tempo de sacrifícios. Sacrifícios, sacrifícios... esta palavra é martelada nas televisões, para que as pessoas se habituem a ela. Mas sacrifícios de quem? Até na escolha da palavra há um cinismo (ou uma imaturidade?) implícito: claro que os sacrifícios não são para todos os mortais.

A palavra sacrificios faz parte de uma narrativa muito bem montada, numa espécie de guião de filme de série inclassificável: 

 

(Vou fazer aqui um breve intervalo e já volto a tentar desenvolver a ideia que me surgiu esta manhã...)

 

Ainda alinhavei aqui uma linha de raciocínio, mas os resultados não me agradaram muito. Digamos que passar a vida a desmontar narrativas oficiais e estratégias de marketing político já não é muito motivador. Vamos então por outra linha: analisar, por exemplo, a escolha de uma das palavras-chave escolhidas por este governo, sacrifícios, e outra, medidas, e ainda outra, buraco ou desvio orçamental, e depois passar para a ideia que me interessa, da acção inteligente e consequente no caminho da autonomia. O que implica analisar o papel das lideranças que nos gerem e o que poderia ser.

 

As palavras-chave escolhidas pelo marketing político do actual governo revelam uma narrativa que se baseia numa espécie de correcção de desvios (ou desvarios) do governo anterior: 

- sacrifícios: palavra forte, com carga ética e religiosa, como um dever, uma obrigação, uma inevitabilidade. A sua escolha não foi inocente, mas ao ter banalizado a sua utilização, e ao não ter assegurado a sua universalidade (todos deveriam contribuir), perdeu credibilidade. Além disso, só se mobilizam cidadãos para contribuir na expectativa de obter resultados, num determinado período de tempo, de modo a libertar a economia dos actuais constrangimentos. 

- medidas: apresentadas a conta-gotas, de forma avulsa, sem coerência nem perspectivas práticas, nem uma avaliação séria das consequências. Com a agravante de não se aplicarem a todos de uma forma sensata e equilibrada. O facto da sua apresentação depender sempre da descoberta de mais um buraco ou desvio orçamental também levou à confusão geral e ao desânimo.

- buraco ou desvio orçamental:  já todos sabiam o que os esperava antes de acederem à gestão política, um país endividado e condicionado pelos credores. 

 

Como lidar com a situação crítica do país? Mobilizando os cidadãos. Este é o único caminho viável para um desafio desta dimensão. 

Como mobilizar os cidadãos? Com a aplicação de cortes na despesa estatal e de algumas receitas selectivas (as tais medidas) coerentes, consequentes, equilibradas, viáveis, baseadas numa comunicação exacta dos passos a dar e dos resultados que se podem esperar. Isto implica a universalidade das contribuições (os tais sacrifícios), e de forma proporcionada e equilibrada. Repito: a informação sobre a aplicação de cortes na despesa e da justificação das receitas (impostos) deve ser exacta, correcta, simples, para todos perceberem a sua necessidade.

 

Neste momento, vemos duas camadas sociais a distanciar-se cada vez mais: os decisores e as vítimas das suas decisões. Qualquer semelhança entre esta organização social baseada na cultura corporativa e os princípios básicos de uma democracia saudável, é pura coincidência. E isto também se passa a nível da UE.

 

A acção inteligente e consequente no caminho da autonomia é a fórmula mais adequada para a nossa situação actual. Aliás, aplica-se a todas as dimensões da nossa vida: familiar, social, profissional, cidadania. Baseia-se num princípio muito simples: o respeito por si próprio e pelos outros. Esta é a essência, a meu ver, de uma democracia saudável. Viver e deixar viver. Perspectivar a economia de uma forma abrangente, em que todos colaboram, activos e inactivos. Perspectivar a participação social e cívica de todos na restruturação das áreas-chave para reforçar a autonomia do país. Perspectivar as redes de apoio social, a nível local, aos mais vulneráveis, crianças e reformados.

 

Um desafio desta dimensão exige lideranças com uma cultura de séc. XXI e com alguma autonomia relativamente aos grupos de influência. Sem lideranças à altura deste desafio não vamos a lado nenhum. 

 

Como nos podemos nós distanciar emocionalmente deste pedalar em seco a escorregar para trás em plano inclinado? Impossível. Mesmo que não liguemos a televisão em hora de notícias, há sempre alguém que nos conta as últimas, com olhar atónito e voz aflita, porque não vê fim à vista. São uns a tapar os buracos e outros a abri-los noutro sítio. Esta situação não se pode manter muito mais tempo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:49








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